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Contribuições da noção de letramento para o ensino de língua portuguesa na Guiné-Bissau a partir da experiência de alunos guineenses da Unilab-BA
Paulo Sergio de Proença, Ivo Aloide Ié

Última alteração: 20/02/2017

Resumo


A UNILAB-Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira recebe, por exigência de sua missão fundadora, estudantes dos países membros da CPLP-Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A convivência entre brasileiros e estrangeiros se configura em rica oportunidade de trocas culturais e linguísticas, com desafios para todos. No campus dos Malês, localizado em São Francisco do Conde (BA), a maioria dos alunos estrangeiros é constituída por guineenses.

A Guiné-Bissau está localizada na costa ocidental do continente africano; ao norte, faz fronteira com Senegal; ao sul e ao leste, com Guine Conacri; tem área de 36.125km², com clima tropical geralmente quente e úmido; a população aproximada é de 1, 5milhão de habitantes. O país é extremamente diversificado culturalmente; por exemplo, o espectro linguístico comporta 30 diferentes grupos étnicos que têm línguas próprias). A independência do colonizador português foi conquistada há pouco mais de 40 anos; a operação-rescaldo pós-colonial ainda lida com as dificuldades decorrentes da rapina própria desse sistema de apropriação, que não se preocupou em criar no país sistema de infraestrutura para as necessidades e as demandas da população. No campo da educação, por exemplo, há em funcionamento pleno apenas cinco universidades privadas (há uma pública que na prática funciona como se fosse privada, por conta de uma solução amigável entre o governo e a mantenedora (Universidade Lusófona), que oferecem anualmente aproximadamente 3300 vagas; isso é muito pouco, se considerarmos que a Guiné-Bissau tem mais da metade da população formada por jovens com menos de 18 anos, sem contar que o caráter privado dessas instituições também dificulta o acesso à educação superior. Com isso, o funil social é muito apertado e seletivo, sendo que o domínio da língua portuguesa é exigido para a ocupação dos postos de maior prestígio social, seja em empresas privadas, seja em postos da burocracia governamental.

A diversidade linguística expõe os guineenses a uma situação de multilinguismo complexo, pois além das línguas étnica, a criança aprende o crioulo (guineense). Contudo, ao chegar à escola, o português é obrigatório, a ponto de ser proibida a comunicação em outras línguas no ambiente escolar. Esse contato é traumático e pode provocar dificuldades de aprendizagem e hierarquização social das línguas, com evidente prejuízo para as línguas étnicas maternas e para o crioulo guineense.

Para entender essa complexa realidade linguística é preciso lançar mão não apenas das disciplinas linguísticas, mas também considerar as contribuições disciplinas pedagógicas, sociais e políticas, dada a amplitudes dos desafios que aquele país enfrenta. Nesse panorama, objetivo desta proposta é realçar aspectos do processo de aquisição da língua portuguesa no processo de ensino formal na Guiné-Bissau a partir da concepção de letramento e destas inquietações: o ensino de língua portuguesa naquele contexto não afunila ainda mais o acesso à plena cidadania linguística (e social), uma vez que jovens guineenses, ao sair da escola, não se sentem motivados a ter iniciativa de fazer uso da língua nas diversas situações de interação social? E, quando se sentem motivados, não encontram oportunidades para isso, o que também é fator redutor para o pleno letramento. Essa situação preocupa os estudantes; muitos procuram se preparar em universidades estrangeiras (como no caso da Unilab); a maioria deles se sente motivada a contribuir para mudanças nesse panorama. Nesse sentido, o conceito de letramento pode oferecer considerável apoio, não só linguístico, mas também pedagógico e ideológico.

O apoio teórico será buscado em linguistas brasileiros que têm se empenhado em discutir o fenômeno da alfabetização e suas relações com aquisição de leitura e escrita, no que diz respeito à aplicação dessas habilidades nas interações sociais, no desafio de se passar da alfabetização para o letramento; dentre os quais destacam-se Magda Soares (2014), Angela Kleimann (1995), Mari Kato (1986) e Leda Tfouni (1995).

A metodologia proposta é qualitativa quanto à abordagem; exploratória quanto aos objetivos e, quanto aos procedimentos para a coleta de dados será utilizada a pesquisa bibliográfica e documental, recolha de depoimentos de alunos guineenses e aplicação de questionários.

Os resultados (parciais) indicam que na Guiné-Bissau (como também no Brasil) prevalece ainda a prática pedagógica centrada na alfabetização, com a atestação da existência de alfabetos funcionais, no nosso caso. Naquele país há a agravante de ser marcadamente significativa a oralidade, para a qual a aquisição da escrita pode ser dispensável; essa característica é notada nos estágios iniciais da trajetória acadêmica de nível superior dos alunos guineenses da Unilab, cujo desafio principal nesse estágio é pavimentar a ponte que vai da oralidade para a escrita.

Segmentos de jovens guineenses universitários aspiram a um futuro mais socialmente justo e reivindicam mudanças de base nas estruturas políticas, econômicas e educacionais do país, o que pode ser propício a reformas no ensino, em particular o ensino de línguas (com adoção de critérios pedagógicos adequados ao ensino de línguas em contato) amparadas em princípios de letramento, que pavimentam o acesso à plena cidadania com a reivindicação desdobrada de equilíbrio na distribuição dos bens materiais e espirituais que o país produz.


Palavras-chave


Unilab; Guiné-Bissau; Letramento; Educação

Referências


KATO, Mary. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística. São Paulo: ática, 1986

KLEIMAN, A. (Org.). Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1995.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonet: Autência Editora, 2014.

TFOUNI, Ieda V. Adultos não alfabetizados: o avesso do avesso. São Paulo: Pontes, 1988.

______. Alfabetização e letramento. São Paulo: Cortez, 1995.


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