Imagem de cabeçalho de páginas internas

Tamanho da fonte: 
A utopia necessária: a vida a partir dos “suis” La utopía necesaria: la vida desde los “sures”
Maria Teresa Franco Ribeiro, Andreia Nascimento Bomfim

Última alteração: 16/02/2017

Resumo


A colonialidade do poder faz da America Latina um cenário de des/encontros entre nossa experiência, nosso conhecimento e nossa memória histórica. (Anibal Quijano, Os fantasmas da America Latina, pag. 59)

 

Esta proposta é fruto de uma pesquisa sobre o processo de integração na América Latina, que atende fundamentalmente ao grande capital e coloca em risco populações indígenas, quilombolas, pequenos agricultores e outras comunidades que vivem a margem do processo de acumulação. Pretendemos nesse trabalho abordar o processo histórico de colonização da América Latina com foco no Chile, Argentina e Brasil, e suas trajetórias de desenvolvimento marcadas por uma forte expropriação territorial e negação das diferentes culturas existentes.

No contexto dessa trajetória vamos identificar os principais processos de expropriação de populações indígenas, africanas com suas diversas etnias assim como todos aqueles que herdaram suas condições de excluídos e tantos outros grupos étnicos que também foram alijados deste processo de acumulação e que desta maneira historicamente vivem à margem do processo de expansão capitalista. São culturas que cultivam o respeito a princípios coletivos de convivência harmônica entre o ser humano, consigo mesmo, com os outros e com as demais formas de vida em um lugar considerado sagrado, a Mãe Terra. Segundo Enrique Dussel o colonialismo levou a um encurtamento da cultura originária, o ser colonial é assim o não ser. O ano de 1492, para o filósofo é o ano do encubrimiento. A luta dos povos originários parte, assim, da constante afirmação de suas identidades em um mundo globalizado que impõe padrões homogeneizantes, mas não sem encontrar resistências; logo nesse exercício de afirmação se encerra também a negação da negação. Para Dussel a modernidade nasce quando a Europa confronta-se com o “outro”, submetendo-o, vencendo-o e violentando-o. Nesse sentido o outro não foi des-coberto, mas in-coberto. Constitui-se nesse encobrimento o senhor do mundo, o mito destruidor que se manifestará, se respaldará no “desenvolvimento” e no “eurocentrismo”. A superação dessa condição subalterna passa necessariamente pela autodeterminação desses povos subjugados.

Duas perspectivas respaldam nossa investigação, as contribuições da teoria da dependência que desconstrói o discurso do subdesenvolvimento como etapa do desenvolvimento, ou desqualifica o mito da modernidade. Os teóricos da dependência, como Rui Mauro Marini, mostram que o subdesenvolvimento não se supera sem se superar a dependência tecnológica desses países em relação ao Norte. Desmistificam assim o mito do progresso como indutor do desenvolvimento.  Assim, a superação da dependência só se dará com a superação do capitalismo como lógica de produção, distribuição e consumo. A segunda contribuição vem também de teóricos que pensam à América Latina e os países da periferia do capital a partir de suas histórias, de suas inserções no sistema internacional de trocas como colônias despossuídas de história, identidade e cultura. E aqui se impõem os costumes, as formas de pensar e dominar a partir do “centro do mundo” – a Europa. As colônias passam a fazer parte desse sistema mundo ocidental. Superar essa linha abissal do mundo ocidental implica construir novas formas de pensar e agir, novas epistemologias que abracem as diversidades de todos os povos excluídos.

O neoliberalismo, a partir dos anos 1990, aprofundou e acirrou as contradições latentes entre os interesses do capital e desses povos fazendo emergir formas cada vez mais violentas, agressivas e cruéis de usurpação de territórios ocupados por diversos povos, vistos como obstáculos ao processo de produção capitalista. Trata-se de um processo de acumulação primitiva que não se limita à acumulação originária. O modo extrativista e de apropriação de terras são formas contemporâneas de acumulação primitiva do capital. Nesse contexto, vamos explorar alguns conflitos contemporâneos no Chile, Argentina e Brasil, assim como as formas de resistências geradas que apontam novas possibilidades de organização da vida nesses territórios e que também apresentam diferentes maneiras de pensar o mundo, ou seja, oferecem projetos de sociedade para todos os povos, pois nessas diferentes perspectivas as alteridades são partes indissociáveis de tais projetos, estas não são negadas, a afirmação de si é também a afirmação do outro- “eu sou porque nós somos”[1]- e não o contrário. Para se compreender esses processos precisamos lançar mão das epistemologias olvidadas assim como refunda-las a partir de um processo reflexivo a fim de atualizá-las no sentido de torná-las eficazes para a compreensão e para a ação necessária aos novos desafios, assim como de novas epistemologias, se valendo de todo o potencial criativo dos diversos Sus, que deem conta da riqueza e diversidade cultural desses povos. Os desafios socioespaciais apontam a necessidade de apropriação de conhecimentos e práticas respaldadas em diferentes cosmovisões que acolham a Mãe Terra como condição necessária à vida e valorizem o respeito às alteridades, a solidariedade e a partilha entre os povos. Impõem-se uma ecologia de saberes que criem, conservem e recuperem as condições de existência da vida na Terra, que o capital em seu movimento perverso nega constante e cotidianamente.

Assim dos espaços de atopia[2], impostos pelas transformações dos fluxos hegemônicos, podem emergir ou não lugares e territórios de cidadania e de resistência que se organizam a partir de outros tipos de economia, outros ritmos, outras temporalidades, representando limites à mesma racionalidade produtora desse tecido de lugares.

Palavras-chave: Colonialismo; Dependência; Epistemologias do Sul.

Palabras clave: Colonialismo; Dependencia; Epistemologías del Sur.


[1]KaKozi Kashind, Jean Bosco. Metafísicas Africanas. Eu sou porque nós somos. Entrevista especial com Jean Bosco KaKozi Kashind, Novembro, 2015, IHU on-line.

 

[2] Negação da condição de se pertencer a um lugar, imposta por relações de poder extremamente desiguais, em diversos domínios (cultural, econômico, jurídico, epistemológico etc) e que se estabelece entre sujeitos e grupos sociais (MELO, 2011).

 


Texto completo: TEXTO COMPLETO